terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sonhos de Natal, um livro de António Mota



Sonhos de Natal é mais um título a que, nesta quadra, apetece voltar. Na verdade, este livro de António Mota, com ilustrações de Júlio Vanzeler, tem o dom especial de nos fazer conviver com um singular ambiente natalício, já esquecido, talvez, por muitos de nós. Nesta narrativa relatada por uma voz infantil e sempre na primeira pessoa, a acção situa-se num pequeno espaço rural, a aldeia Pedra de Hera, e tem como protagonista o próprio narrador. Manuel, o narrador, conta, assim, a sua própria história, uma história que se passou há muito tempo, num tempo em que televisão, vídeo e jogos de computador ainda não existiam e em que o Natal era preparado com o tempo, com a paciência e com a atenção que, por exemplo, a apanha do musgo e a elaboração de um presépio exigem. O Natal de Manuel e dos seus companheiros de escola e de aldeia é, com efeito, o Natal na sua forma essencial, é um Natal em que crianças e idosos partilham tarefas, em que se sonha com o Menino Jesus, em que se espera ansiosamente pela manhã para ver os presentes deixados no sapatinho ou em que a família se reúne em volta de uma mesa na qual não falta o bacalhau cozido. O espírito de amizade, de união e de entreajuda, bem como a alegria do reencontro familiar – o pai de Manuel, ausente no Brasil, regressa a casa – ou uma série de quadros típicos do imaginário infantil – como o medo da noite e das bruxas – pontuam toda a narrativa, despertando empatia no leitor.
Deixamos aqui um excerto da preparação do presépio: «A primeira coisa a ir para dentro da gruta foi o musgo. Com muito jeito alcatifámos o chão com mantas fofas e verdes que fomos tirando das cestas. As heras foram crescendo em redor. E, de repente, o interior da gruta transformou-se numa serra verdinha, com arvoredo e cheia de pasto, a precisar de um rebanho de ovelhas e de alguns pastores. (…) Feita com espigas de trigo, saiu da caixa uma manjedoura. Era uma boa ideia. Se chovesse ou nevasse, aquela manjedoura serviria para lá pôr o feno seco para o rebanho comer. Outro pastor chegou. Aquele pastor, que era ainda rapazinho e tinha um chapéu roto na cabeça, foi pôr-se junto dos cordeiros. E fez muito bem. Aquela serra não estava vigiada. Se aparecesse um lobo, os cordeiros, coitaditos, nem sequer teriam tempo de chamar pelo cão. Depois apareceu uma vaca (…). Do outro lado veio encostar-se um burrinho. Logo depois apareceu S. José e foi encostar-se à manjedoura. Atrás de José, veio Maria. O burrinho, a vaca, José e Maria estavam a olhar para a manjedoura. Bem se via que estavam preocupados. O bafo muito quente saía das narinas da vaca e do burrinho e aquecia a palha da manjedoura. Uma estrela prateada apareceu no cimo da gruta, bem perto de um galo que não parava de cantar. Finalmente, muito gorducho, sempre a rir, só com uma fralda de pano no corpo, o Menino Jesus foi posto na manjedoura. Depois ficámos bastante tempo a olhar. A olhar. Calados. O silêncio era tão grande naquela gruta que até parecia que ouvíamos o Menino Jesus a respirar tranquilamente.»

Sonhos de Natal é, pois, um livro em que a infância e a memória andam de mãos dadas com um delicado espírito natalício. Sonhos de Natal, de António Mota e Júlio Vanzeler, uma leitura pela tradição e pelos afectos.

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