quarta-feira, 29 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O tempo entre costuras, de María Dueñas

O tempo entre as costuras é, nas palavras de Fernando S. Dragó, "um romance como os de antigamente".
Trata-se de um bom companheiro para quem gosta de passear pelo passado, imaginando que percorre as ruelas de Tânger (mesmo estando sentado em Lisboa, frente ao Tejo, no Cais das Colunas) ou as grandes avenidas de Madrid durante a Guerra Civil (mesmo vivendo num Portugal em guerra económica).
Olhando para o título, é inevitável associar as linhas do texto aos pontos, pespontos e alinhavos que Sira, a modista que protagoniza esta história de amor, traição, espionagem e guerra, vai tecendo à medida que cresce, amadurece e se transforma aos nossos olhos ávidos de leitores.
Recomendo a quem gosta de histórias habilmente construídas e minuciosamente documentadas.
Ora vejam a frase de abertura e digam se não apetece descobrir a história:

"Uma máquina de escrever arruinou o meu destino."
S.N.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Snu e a vida privada com Sá Carneiro, de Cândida Pinto

Quem nos diz que as paixões imensas e as histórias de amor avassaladoras são um produto exclusivo da ficção cor-de-rosa ou das produções hollywoodianas bem embrulhadas em fogo-de-artifício sensual, banda sonora xaroposa e cenários de sol, palmeiras e mares translúcidos talvez não conheça muito da Humanidade.
O último livro de Cândida Pinto prova-nos que a vida é bem mais surpreendente e rica do que a imaginação ficcional, quando nos revela o extraordinário encontro de Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro, duas figuras públicas que viveram um amor "fora da lei" num Portugal pouco dado à transgressão de costumes.
Vale a pena ler e perceber quão assombrosos e imprevisíveis são alguns encontros...
S.N.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Pequena Abelha, de Chris Cleave

Aclamado pela crítica e pelo público, Pequena Abelha, pareceu-me logo nas primeiras páginas um daqueles livros destinados a transformar-se em filme. O ritmo narrativo, a qualidade das descrições, a estranheza das personagens e a originalidade da história são um convite irrecusável, em primeiro lugar, à leitura para desvendarmos o final misterioso e, em segundo lugar, àquela imaginação galopante que nos faz escolher banda sonora, cenário, actores e realizador para o filme que gostaríamos de ver num cinema perto de nós.
Quem me recomendou o livro, disse-me "o final é surpreendente e muito especial", e, de facto, a história de dois destinos que se cruzam e obrigam a uma escolha terrível (com todas as consequências que as decisões difíceis sempre trazem) prendeu-me e levou-me a acreditar que o desfecho seria extraordinário. No entanto, para meu espanto, o final foi decepcionante como aqueles embrulhos deslumbrantes que, depois de abrimos, revelam apenas uma caixa de papelão, sem cor, sem vida. Porém, vale a pena a leitura se conseguirmos fazer o exercício seguinte: parar na página 250, respirar fundo e criar o nosso próprio final.
S.N.

Rosa Brava, de José Manuel Saraiva

Para quem entende que a História é, muitas vezes, a melhor das matérias que a imaginação romanesca pode "manipular", o romance histórico oferece um festim de leitura e um autêntico deleite. Em Rosa Brava descobrimos o Portugal do século XIV, os seus conflitos internos, as guerras com Castela, as intrigas da corte, as traições e os assassínios. No centro do romance está Leonor Teles, figura controversa e mal-amada, talvez pela sua irreverência, destemor e sensualidade, qualidades pouco usuais numa mulher do Portugal de trezentos. O talento descritivo do autor faz-nos viajar no tempo e passear pelos corredores do poder como observadores privilegiados.
S.N.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado, de Fialho de Almeida

Ouvia, há dias, na rádio TSF, um programa sobre Fialho de Almeida e o entusiasmo dos intervenientes a respeito desta figura da literatura portuguesa do século XIX despertou-me a curiosidade.
Sabia que havia algures numa das estantes lá de casa, arrumados numa ordem (cromático-estética) que ninguém entende senão eu, dois ou três livros do autor. Com efeito, na última e mais vertiginosa prateleira lá descobri os Contos, Literatura Gagá e Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado. Escusado será dizer que o espantoso e sugestivo título do último volume funcionou como um íman.
A ironia assassina, a imaginação delirante, a originalidade e inventividade linguísticas, o tom cómico e mordaz das descrições foram, ao longo de 36 páginas, um poderoso estímulo à gargalhada permanente.
Ora vejam o que diz o narrador a D. Luís:
"Oh meu senhor, habilite-se! Uma reles bomba que seja. (...) Não faça caso das precauções da medicina, venha à cidade repontar c'o Zé Povinho, chamar-nos tipos, dar canelões nas nossas mulheres - fazer enfim pelo tirázio enquanto é tempo. Nestas coisas de martírio, só a primeira abordagem custa um pouco. Que transtorno faria a V.M. um balázio, sabendo a ovação que abichava depois de morto?
Ah, que vida monótona tem sido a de V. M... jantarinhos de canja magra no quarto, violoncelo quando vão artistas de S. Carlos, e como hors-d'oeuvre, a pouca vergonhazinha extra matrimonial às quintas-feiras!... V. M. carece de sair quanto antes dessa apatia."
S. N.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Que o Cão Viu, de Malcom Gladwell

Diz-se deste autor que é o "pensador mais influente do mundo", "um verdadeiro génio como contador de histórias", "um talento singular". Recomendações tão entusiásticas e laudatórias tiveram, obviamente, o condão de me fazerem querer confirmar-lhe o mérito.
Devo confessar que fico sempre um pouco de pé atrás quando leio as frases bombásticas de críticos de nomeada que os editores aproveitam para compor as contracapas dos livros dos seus autores-revelação. Porém, lida a obra, admito que me impressionaram a simplicidade e a clarividência de Malcom Gladwell na abordagem de temas tão aparentemente banais, insípidos e sem história como a coloração para cabelo, a pílula contraceptiva, a espionagem, o génio, os perfis criminais ou as entrevistas para emprego.
O livro recolhe os artigos preferidos do autor, escritos desde 1996 e publicados na revista The New Yorker. Dividido em três partes de títulos bem sugestivos ("Obsessivos, pioneiros e outras variedades de génios de segunda ordem", "Teorias, previsões e diagnósticos" e "Personalidade, carácter e inteligência"), o livro dá-nos respostas surpreendentes àquelas perguntas tantas vezes tão óbvias ou tão simples que nem nos incomodamos em formular.
Já algum dia se deram ao trabalho de perguntar: "As pessoas inteligentes estão sobrevalorizadas?". Leiam a resposta de Malcom Gladwell. Nem preciso de vos dizer que é, no mínimo, inesperada...
S.N.