quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Já não se escrevem cartas de Amor, de Mário Zambujal


«A certa altura, decidi que não poderia passar a noite parado como um legume, apelei à pouca coragem e disse para mim próprio: “Seja o que Deus e ela quiserem.” Avancei lesto para a mesa de Erika e, lá chegado, tomou-me uma sensação de fracasso inevitável, mesmo de ridículo. Balbuciei por fim: - A menina não quer dançar comigo, pois não?»


Duarte é um jovem bon vivant, que, entre as noites glamorosas passadas no Grande Casino Internacional do Estoril, as tardes de café no Chave D’Ouro, no Palladium ou no Martinho do Rossio e a vida boémia nas boîtes da capital, vê o seu coração ser arrebatado por uma jovem alta, esguia, loura e de sorriso luminoso, de nome Erika.

Mário Zambujal transporta-nos, nesta novela de prosa clara e original, pautada de humor, imaginação e sensibilidade, numa viagem de imagens e memórias, à Lisboa dos anos 50. Uma época de apetites e excessos. De paixões e desventuras. Era um tempo em que havia tempo. Até se escreviam cartas de amor.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nem tudo começa com um beijo, de Jorge Araújo e Pedro Silva Pereira


Nem tudo começa com um beijo começa com um segredo que só mais tarde será revelado: “Gelatina aprendeu, por experiência própria, que o remorso ataca sobretudo à noite.” Gelatina (a personagem) esconde o seu segredo para proteger outra pessoa, e Fio Maravilha encontra o amor junto da Nuvem Maria.
Sim, os nomes não são os mais comuns, de todo. Temos o/a Gelatina, Bisnaga, Fio Maravilha, Molécula, Armando Pantera, Domingo, Nuvem Maria e mais.
Este livro apresenta “o mundo como sendo uma casa, que tem Cave e Sótão. A Cave são os buracos do esgoto que servem de tectos…aos meninos que não têm para onde ir. No Sótão fica a cidade. Nele vivem as pessoas que se cruzam nos elevadores, dizem ‘bom dia’ e ‘boa tarde’ mas não se conhecem.”.
Pelo meio mas talvez o mais importante, deparamo-nos com uma bela história de amor, daquelas que hoje já não encontramos. Uma história que não começa com um beijo mas com desenhos colocados debaixo de uma pedra sobre um banco à espera de uns cabelos loiros. “Os desenhos sempre acompanhados de um pensamento, de uma confissão. De uma declaração de amor.
O facto de a narrativa ser protagonizada por crianças e jovens em situação de risco num cenário desrealizante sublinham a importância do amor e dos afectos na vida humana.
O livro constitui uma leitura surpreendentemente cativante, capaz de prender o leitor até à última página.

Jorge Araújo e Pedro Silva Pereira foram autores galardoados com o prémio literatura Gulbenkian em 2003, com o livro Comandante Hussi.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Inês de Portugal, de João Aguiar


Castelo de Santarém, num dia do ano de Cristo de 1359. Enquanto el-rei D. Pedro I corre a caça pelos campos, os seus conselheiros Álvaro Pais e João Afonso Tello esperam com sombria ansiedade a chegada de dois prisioneiros, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, dois dos «matadores»de Inês de Castro (o terceiro, Diogo Lopes Pacheco, logrou fugir e refugiou-se em França). A esses homens havia sido solenemente prometido perdão, mas o rei, decidido a vingar a única mulher que amou, quebrou o juramento feito, e agora eles vêm, debaixo de ferros, a caminho de Santarém.É este o ponto de partida de Inês de Portugal. Mas ao longo das suas páginas é toda a história de Pedro e Inês que João Aguiar reconstrói.


É pela voz de Álvaro Pais e João Afonso Tello que João Aguiar conta esta bem conhecida história do desenlace trágico dos amores de Pedro e Inês de Castro, a bela dama galega "que despois de ser morta foi Rainha", como cantou Camões.


"As recordações excitam-no, fazem-lhe subir o sangue mais depressa à cabeça, como se para lá se tivesse mudado o coração. Assim foi, assim foi, porém hoje D. Afonso já não reina em Portugal e as bestas-feras jazem na masmorra à minha mercê e haverá de novo justiça, porque um rei-fantasma a fará, sobre grandes e pequenos, ricos e pobres. Sobre os vivos e também os mortos. Roubaram-te de mim, Inês, mas não sabiam que assim mesmo te punham para sempre em mim. Para sempre, até ao fim do mundo."


in Inês de Portugal

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A vida nas palavras de Inês Tavares, de Alice Vieira


Que fazer quando se tem 13 anos, se pediu um i-pod pelo Natal e se recebe um diário? Aqui se relata - pelas palavras da própria - um ano da vida de Inês Tavares, com as suas melhores amigas (e dois amigos, porque os rapazes fazem sempre jeito para levar às festas...) e as suas grandes paixões: o chocolate e o Brad Pitt. Para além da paz no mundo, evidentemente.


Num estilo a que, desde o memorável Rosa, minha irmã Rosa (1979), Alice Vieira nos tem habituado, esta narrativa juvenil coloca, uma vez mais, em primeiro plano a voz e a vida interior de uma adolescente de 13 anos. Uma percepção singular do real, encarado ora com leveza, ora com seriedade, ora com humor, as vivências escolares e a família, com os seus membros “especiais à sua medida”, alimentam esta narrativa, que evidencia uma configuração autobiográfica e é composta a partir dos modelos ficcionais do diário (como, aliás, faz prever o divertido segmento subtitular “Diário de quem só quer a paz no mundo e o Brad Pitt”). As referências a elementos que caracterizam o nosso tempo (por exemplo, o “Simplex”) e que dominam o mundo dos adolescentes (por exemplo, a influência das séries televisivas) multiplicam-se e reforçam quer a componente humorística do discurso, decorrente, por vezes, de um certo tom caricatural, quer uma perspicaz crítica social.


in Casa da Leitura



terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Ilha, de Victoria Hislop


Numa altura em que a sua vida estava dominada por um dilema, Alexis Fielding sentia-se mais determinada do que nunca a levantar o véu de mistério que sempre encobriu o passado da sua mãe, Sofia. Alexis sabia apenas que Sofia tinha sido criada numa aldeia de Creta. Decidiu, então, fazer uma viagem até às ilhas gregas e, para sua surpresa, Sofia achou que estava na altura de ela saber mais acerca do passado. Antes de Alexis partir para a sua viagem, Sofia deu à filha uma carta para entregar a uma velha amiga, Fotini, e prometeu-lhe que através dela ficaria a saber muito mais...
Quando encontrou Fotini, Alexis ficou finalmente a conhecer a história que Sofia escondera toda a vida: a história de uma família dilacerada pela tragédia, pela guerra e pela paixão. Alexis descobre que está intimamente ligada a Spinalónga (uma ilha grega) e que o passado poderá ajudá-la a resolver o futuro...

Esse romance de vidas e paixões intensas desdobra-se no cenário do Mediterrâneo do início do século XX, passa pela Segunda Guerra Mundial e chega ao nosso tempo. A Ilha é uma história de desejos, de segredos desesperadamente escondidos e do estigma da lepra sobre quatro gerações de uma família.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes - confissões de um médico



É um livro de confissões/memórias de um neuro oncologista pediátrico e hoje neurologista sobre doenças de deficit de atenção. Uma reflexão sentida sobre aquilo porque muitas pessoas têm que passar ao longo da vida ou já no fim dela.
«Sinto Muito é sobre o sofrimento em geral, sobre a dor, seguida de perda, seguida de dor. Entristece o coração, mas recompensa-o grandemente, tornando-o mais leve e melhor. Nuno Lobo Antunes pretende, com bom propósito e bons resultados, deixar que o seu coração se pronuncie, que se liberte a sua voz, que seja conhecida a sua humanidade. E, na verdade, a alma fala.
Há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta, como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra de ser menor e imperfeito. Este é um livro de confissões. Uma peregrinação interior em que a bailarina torce o pé, o saltador derruba a barra, o arquitecto se senta debaixo da abóbada, e no fim, ela desaba.O médico e o seu doente são um só, face dupla da mesma moeda. O médico provoca o Criador, não lhe vai na finta, evita o engodo. Mas no cais despede-se, e pede perdão por não ter sido parceiro para tal desafio.»

Do prefácio de António Damásio

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Metamorfose, de Franz Kafka


Em A Metamorfose, Kafka narra a fantástica história de Gregor Samsa, que um dia, após acordar de sonhos intranquilos, se encontra transformado num gigantesco insecto.
A partir de então, a vida de Gregor passa a ser de grande sofrimento e agonia. Impossibilitado de sair do seu quarto, perde-se em devaneios e em considerações sobre a sua vida. A família, totalmente dependente dele, observa com asco e horror o jovem metamorfoseado que, aos poucos, vai definhando e chega à beira da loucura.
A Metamorfose é uma obra perturbadora. A atmosfera claustrofóbica da narrativa faz com que o leitor sinta todo o desespero do personagem principal, que se encontra incapacitado diante da sua nova realidade. Kafka apresenta-nos uma metáfora do mundo moderno, que nos aprisiona dentro de uma insignificante carapaça de insecto, diante da máquina burocrática do estado.
Gregor é um ser angustiado e sem iniciativa. Desencantado consigo mesmo e com o mundo, não encara a possibilidade de mudança. Acomoda-se e não procura a "libertação".
Um livro de qualidade.