quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A vida nas palavras de Inês Tavares, de Alice Vieira


Que fazer quando se tem 13 anos, se pediu um i-pod pelo Natal e se recebe um diário? Aqui se relata - pelas palavras da própria - um ano da vida de Inês Tavares, com as suas melhores amigas (e dois amigos, porque os rapazes fazem sempre jeito para levar às festas...) e as suas grandes paixões: o chocolate e o Brad Pitt. Para além da paz no mundo, evidentemente.


Num estilo a que, desde o memorável Rosa, minha irmã Rosa (1979), Alice Vieira nos tem habituado, esta narrativa juvenil coloca, uma vez mais, em primeiro plano a voz e a vida interior de uma adolescente de 13 anos. Uma percepção singular do real, encarado ora com leveza, ora com seriedade, ora com humor, as vivências escolares e a família, com os seus membros “especiais à sua medida”, alimentam esta narrativa, que evidencia uma configuração autobiográfica e é composta a partir dos modelos ficcionais do diário (como, aliás, faz prever o divertido segmento subtitular “Diário de quem só quer a paz no mundo e o Brad Pitt”). As referências a elementos que caracterizam o nosso tempo (por exemplo, o “Simplex”) e que dominam o mundo dos adolescentes (por exemplo, a influência das séries televisivas) multiplicam-se e reforçam quer a componente humorística do discurso, decorrente, por vezes, de um certo tom caricatural, quer uma perspicaz crítica social.


in Casa da Leitura



terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A Ilha, de Victoria Hislop


Numa altura em que a sua vida estava dominada por um dilema, Alexis Fielding sentia-se mais determinada do que nunca a levantar o véu de mistério que sempre encobriu o passado da sua mãe, Sofia. Alexis sabia apenas que Sofia tinha sido criada numa aldeia de Creta. Decidiu, então, fazer uma viagem até às ilhas gregas e, para sua surpresa, Sofia achou que estava na altura de ela saber mais acerca do passado. Antes de Alexis partir para a sua viagem, Sofia deu à filha uma carta para entregar a uma velha amiga, Fotini, e prometeu-lhe que através dela ficaria a saber muito mais...
Quando encontrou Fotini, Alexis ficou finalmente a conhecer a história que Sofia escondera toda a vida: a história de uma família dilacerada pela tragédia, pela guerra e pela paixão. Alexis descobre que está intimamente ligada a Spinalónga (uma ilha grega) e que o passado poderá ajudá-la a resolver o futuro...

Esse romance de vidas e paixões intensas desdobra-se no cenário do Mediterrâneo do início do século XX, passa pela Segunda Guerra Mundial e chega ao nosso tempo. A Ilha é uma história de desejos, de segredos desesperadamente escondidos e do estigma da lepra sobre quatro gerações de uma família.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Sinto Muito, de Nuno Lobo Antunes - confissões de um médico



É um livro de confissões/memórias de um neuro oncologista pediátrico e hoje neurologista sobre doenças de deficit de atenção. Uma reflexão sentida sobre aquilo porque muitas pessoas têm que passar ao longo da vida ou já no fim dela.
«Sinto Muito é sobre o sofrimento em geral, sobre a dor, seguida de perda, seguida de dor. Entristece o coração, mas recompensa-o grandemente, tornando-o mais leve e melhor. Nuno Lobo Antunes pretende, com bom propósito e bons resultados, deixar que o seu coração se pronuncie, que se liberte a sua voz, que seja conhecida a sua humanidade. E, na verdade, a alma fala.
Há no médico o desejo de ser santo, de ser maior. Mas na sua memória transporta, como um fardo, olhares, sons, cheiros e tudo o que o lembra de ser menor e imperfeito. Este é um livro de confissões. Uma peregrinação interior em que a bailarina torce o pé, o saltador derruba a barra, o arquitecto se senta debaixo da abóbada, e no fim, ela desaba.O médico e o seu doente são um só, face dupla da mesma moeda. O médico provoca o Criador, não lhe vai na finta, evita o engodo. Mas no cais despede-se, e pede perdão por não ter sido parceiro para tal desafio.»

Do prefácio de António Damásio

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A Metamorfose, de Franz Kafka


Em A Metamorfose, Kafka narra a fantástica história de Gregor Samsa, que um dia, após acordar de sonhos intranquilos, se encontra transformado num gigantesco insecto.
A partir de então, a vida de Gregor passa a ser de grande sofrimento e agonia. Impossibilitado de sair do seu quarto, perde-se em devaneios e em considerações sobre a sua vida. A família, totalmente dependente dele, observa com asco e horror o jovem metamorfoseado que, aos poucos, vai definhando e chega à beira da loucura.
A Metamorfose é uma obra perturbadora. A atmosfera claustrofóbica da narrativa faz com que o leitor sinta todo o desespero do personagem principal, que se encontra incapacitado diante da sua nova realidade. Kafka apresenta-nos uma metáfora do mundo moderno, que nos aprisiona dentro de uma insignificante carapaça de insecto, diante da máquina burocrática do estado.
Gregor é um ser angustiado e sem iniciativa. Desencantado consigo mesmo e com o mundo, não encara a possibilidade de mudança. Acomoda-se e não procura a "libertação".
Um livro de qualidade.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Uma fábula intemporal...

Em O Triunfo dos Porcos, agora com o título original A Quinta dos Animais, tudo começa quando um velho porco, o Velho Major, sonha que libertará os animais da escravidão em que vivem e comunica aos outros o seu sonho. Passados três dias, Major morre, mas a revolução que iniciara na cabeça dos animais acabará por se concretizar com a expulsão do Sr. Reis (dono da quinta) e a libertação de todos os animais da escravidão. Da revolução nascem sete mandamentos, redigidos pelos porcos (considerados os mais inteligentes), que passam a reger a vida na quinta:
1º- Tudo o que anda sobre dois pés é inimigo;

2º- Tudo o que anda sobre quatro pés, ou asas, é amigo;

3º- Nenhum animal usará roupas;

4º- Nenhum animal dormirá numa cama;

5º- Nenhum animal beberá álcool;

6º- Nenhum animal matará outro animal;

7º- Todos os animais são iguais.

A contínua alteração dos mandamentos culmina no último mandamento, frase que ficará na história como marca de toda a alegoria de Orwell: "Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros"...
Esta fábula política intemporal surge como a me­táfora de uma sociedade “perfeita”, conduzida por um ideal utópico revolucionário, que se transforma rapidamente num regime opressivo, tirânico e totalitário quando governada segundo os interesses dos seus líderes.
Um livro imperdível.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Zafón


Na Barcelona de início do século XX, uma casa desabitada durante muitos anos encerra um mistério que envolve um livro maldito e a morte de uma criança. David, personagem principal e narrador, é um jovem aspirante a escritor que, após os primeiros fogachos de sucesso na escrita de histórias para um jornal, recebe o convite para escrever um livro de contornos tenebrosos para uma personagem sinistra que lhe oferece uma fortuna pela escrita do mesmo – um livro religioso, que, tal Bíblia ou Alcorão, permitira criar um novo movimento de condução das massas populares para qualquer fim que se pretendesse obter. Ao ir viver para a casa desabitada que há muito o atraía, David depara-se com coincidências estranhas que envolvem o anterior habitante dessa casa e o seu editor, dando início a uma investigação que a pouco e pouco vai deixando mortes estranhas atrás de si, à medida que vai sendo também perseguido pela polícia, contando ainda com a grande amizade de uma admiradora da sua escrita e o desespero do seu caso de amor pela mulher do seu melhor amigo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Os Retornados, de Júlio Magalhães


Outubro, 1975. Quando o avião levantou voo deixando para trás a baía de Luanda, Carlos Jorge tentou a todo o custo controlar a emoção. Em Angola deixava um pedaço de terra e de vida. Acompanhado pela mulher e filhos, partia rumo ao desconhecido. A uma pátria que não era a sua. Joana não ficou indiferente ao drama dos passageiros que sobrelotavam o voo 233. O mais difícil da sua carreira como hospedeira. No meio de tanta tristeza, Joana não conseguia esquecer o olhar firme e decidido de Carlos Jorge. Não percebia porquê, mas aquele homem perturbava-a profundamente. Despertava-a para a dura realidade da descolonização portuguesa e para um novo sentimento que só viria a ser desvendado vinte anos mais tarde. Foram milhares os portugueses que entre 1974 e 1975 fizeram a maior ponte área de que há memória em Portugal. Em Angola, a luta pelo poder dos movimentos independentistas espalhou o terror e a morte por um país outrora considerado a jóia do império português. Naquela espiral de violência, não havia outra solução senão abandonar tudo: emprego, casa, terras, fábricas e amigos de uma vida.