sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Um belo poema para começar o ano!


Recomeça...


Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.


E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Uma Homenagem à Língua Portuguesa


A VIAGEM DO ELEFANTE, de José Saramago

Estamos em 1551 e D. João III quer agradar a Maximiliano da Áustria, casado com uma filha do Imperador Carlos V. Oferece-lhe então um elefante indiano, como presente de casamento tardio mas original. Um gesto político numa época de cisões religiosas, em que o paquiderme simboliza o esplendor lusitano.
Esta é a odisseia do elefante Salomão e da sua atribulada travessia pela Europa. Um olhar sobre a humanidade, em que o sarcasmo se conjuga sabiamente com a compaixão pelas fraquezas humanas.

" Se A Viagem for o último, dá-me uma grande satisfação. Porque não sendo um testamento, é, além do mais, uma homenagem à Língua Portuguesa."
José Saramago in Jornal de Letras

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Voz do Coração, de Rosa Lobato de Faria


Apesar do consumismo, o Natal continua a ser uma das alturas mais felizes do ano . Ler livros e contar histórias há muito que já entrou nos hábitos de várias famílias, nesta quadra tão especial.
O novo livro de Contos de Natal de Rosa Lobato de Faria, intitulado “A Voz do Coração”, tema de um dos contos, certamente que fará as delícias de miúdos e graúdos. As ilustrações, assinadas por Rita Antunes, estão muito bem conseguidas. E os contos da conhecida escritora também são uma delícia. Simples ao máximo, mas é nesse simplicidade que nos revemos! Tocou-me especialmente o conto em que o desejo de Natal era apenas : “que o meu pai saísse às 17h30”. Não seríamos todos mais felizes se conseguíssemos chegar a casa a horas de brincar com os nossos filhos? Esta é mais uma sugestão de leitura e presente de Natal! Afinal não podemos deixar morrer a ideia romântica da lareira acesa e de uma criança sentada num colo a ouvir contar uma história.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sonhos de Natal, um livro de António Mota



Sonhos de Natal é mais um título a que, nesta quadra, apetece voltar. Na verdade, este livro de António Mota, com ilustrações de Júlio Vanzeler, tem o dom especial de nos fazer conviver com um singular ambiente natalício, já esquecido, talvez, por muitos de nós. Nesta narrativa relatada por uma voz infantil e sempre na primeira pessoa, a acção situa-se num pequeno espaço rural, a aldeia Pedra de Hera, e tem como protagonista o próprio narrador. Manuel, o narrador, conta, assim, a sua própria história, uma história que se passou há muito tempo, num tempo em que televisão, vídeo e jogos de computador ainda não existiam e em que o Natal era preparado com o tempo, com a paciência e com a atenção que, por exemplo, a apanha do musgo e a elaboração de um presépio exigem. O Natal de Manuel e dos seus companheiros de escola e de aldeia é, com efeito, o Natal na sua forma essencial, é um Natal em que crianças e idosos partilham tarefas, em que se sonha com o Menino Jesus, em que se espera ansiosamente pela manhã para ver os presentes deixados no sapatinho ou em que a família se reúne em volta de uma mesa na qual não falta o bacalhau cozido. O espírito de amizade, de união e de entreajuda, bem como a alegria do reencontro familiar – o pai de Manuel, ausente no Brasil, regressa a casa – ou uma série de quadros típicos do imaginário infantil – como o medo da noite e das bruxas – pontuam toda a narrativa, despertando empatia no leitor.
Deixamos aqui um excerto da preparação do presépio: «A primeira coisa a ir para dentro da gruta foi o musgo. Com muito jeito alcatifámos o chão com mantas fofas e verdes que fomos tirando das cestas. As heras foram crescendo em redor. E, de repente, o interior da gruta transformou-se numa serra verdinha, com arvoredo e cheia de pasto, a precisar de um rebanho de ovelhas e de alguns pastores. (…) Feita com espigas de trigo, saiu da caixa uma manjedoura. Era uma boa ideia. Se chovesse ou nevasse, aquela manjedoura serviria para lá pôr o feno seco para o rebanho comer. Outro pastor chegou. Aquele pastor, que era ainda rapazinho e tinha um chapéu roto na cabeça, foi pôr-se junto dos cordeiros. E fez muito bem. Aquela serra não estava vigiada. Se aparecesse um lobo, os cordeiros, coitaditos, nem sequer teriam tempo de chamar pelo cão. Depois apareceu uma vaca (…). Do outro lado veio encostar-se um burrinho. Logo depois apareceu S. José e foi encostar-se à manjedoura. Atrás de José, veio Maria. O burrinho, a vaca, José e Maria estavam a olhar para a manjedoura. Bem se via que estavam preocupados. O bafo muito quente saía das narinas da vaca e do burrinho e aquecia a palha da manjedoura. Uma estrela prateada apareceu no cimo da gruta, bem perto de um galo que não parava de cantar. Finalmente, muito gorducho, sempre a rir, só com uma fralda de pano no corpo, o Menino Jesus foi posto na manjedoura. Depois ficámos bastante tempo a olhar. A olhar. Calados. O silêncio era tão grande naquela gruta que até parecia que ouvíamos o Menino Jesus a respirar tranquilamente.»

Sonhos de Natal é, pois, um livro em que a infância e a memória andam de mãos dadas com um delicado espírito natalício. Sonhos de Natal, de António Mota e Júlio Vanzeler, uma leitura pela tradição e pelos afectos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Natal do Sr. Scrooge, um conto de Natal de Charles Dickens



O Natal do Sr. Scrooge narra a história de um velho sovina que acha que o Natal é um monte de disparates. Homem solitário, tem uma firma onde emprega o seu jovem sobrinho, pobre de recursos mas rico em sentimentos, a quem trata e julga como um miserável. Na véspera de Natal e estando sozinho em sua casa, recebe a visita do fantasma do seu antigo sócio Marley, que lhe comunica que nessa mesma noite irá receber a visita de três espíritos: O do Natal Passado, O do Natal Presente e o do Natal Futuro. Mesmo falando com o fantasma de Marley, Scrooge escarnece do assunto e, após a partida do fantasma, decide voltar a adormecer. Até que quando bate a uma hora da manhã, Scrooge é acordado por terríveis pancadas que anunciam o espírito do Natal Passado. Sucessivamente e nessa noite, surgem-lhe os três fantasmas anunciados que o levam a visitar algo ou alguém, provocando assim uma completa transformação da personalidade de Scrooge, transformando-o num homem bom, generoso e honesto.
A mensagem é simples mas bonita: Bondade, amizade, união familiar e generosidade. São estes, talvez, os quatro pilares do Natal e, não deixa de ser tocante e marcante a transformação que é operada em Scrooge, fazendo-o ver o quanto é errado o seu comportamento e que ainda há pessoas que o amam.


Sinopse de O Natal do Sr. Scrooge, de Charles Dickens

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Suave Milagre - Um Conto de Eça de Queirós


Ora entre Enganin e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ele o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos, espessamente a miséria cresceu como bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava um grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!
Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com os olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que de desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesareia. Errando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.
A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, a mãe mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males, ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça engelhada:- Oh filho! e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Chorazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde Hébron até ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e nossa dor mora connosco, dentro destas paredes e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:- Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!E a mãe, em soluços:- Oh meu filho como te posso deixar! Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:- Mãe, eu queria ver Jesus...E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou.

"O Suave Milagre", de Eça de Queirós in Gloria in Excelsis - As mais Belas Histórias de Natal, antologia de Vasco Graça Moura (texto com supressões)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Saramago e o Natal


"Porquê?", pergunta a Professora à Menina que fez o desenho. A Menina não responde. Talvez mais nervosa do que quereria mostrar, a Professora insiste. Há na sala os risos cruéis e os murmúrios de troça que sempre aparecem em ocasiões destas. A menina está de pé, muito séria, um pouco trémula. E responde, por fim: "Pintei a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu".

José Saramago in "História de um muro branco e de uma neve preta" na Antologia de Vasco Graça Moura - Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal